Adeus à Sondermann

Todos que praticam e participam do automobilismo sabem que é um esporte que envolve riscos e riscos que se vêm a se materializar, podem acabar em sérias conseqüências para a vida dos seus praticantes.

Graças ao aperfeiçoamento dos carros e autódromos, vê-se muito constantemente acidentes que não geram maiores conseqüências, a não ser financeiras, pela destruição que provocam, dos respectivos equipamentos.

No Brasil, ao que parece, excetuando alguns autódromos do Sul, a situação da maioria dos autódromos é de abandono, quando não de dilapidação declarada, como o caso do Rio de Janeiro.

O autódromo de Interlagos, é uma caso à parte.

Quando as modificações que o mutilaram, foram estabelecidas no início dos anos 90, nosso autódromo já contava com mais de 50 anos e era considerado o grande formados de pilotos da nossa nação.

Isto se explica porque era tão grande a variedade de curvas existentes, com grande raio, com pequeno, com duplo raio, etc, que o piloto que ia ao exterior, já tinha como referência uma curva do autódromo de Interlagos.

Por exigência da Televisão e da Fórmula Um, onde largam, no máximo 22 carros, um autódromo com mais de 4500 m , acabava por ser grande demais para um número diminuto de carros, ocasionando problemas para focalizar os carros espalhados pela pista.

Assim um autódromo que devia ser considerado um monumento ao automobilismo mundial, foi retalhado e de seus 7960 m históricos, restaram pouco mais da metade desse número.

Acabaram com as curvas 1, 2 e três, com a Ferradura, inverteram o sentido da curva do Lago, acabaram com a curva do Sol, do Sargento, do Laranja, transformada em Laranjinha, modificaram o Mergulho e a Junção, tornando o circuito um arremedo do que era no passado.

Um traçado travado com poucas curvas de alta velocidade.

Nem que fosse só por respeito ao esporte que tantas alegrias nos deu, com mais títulos em campeonatos mundiais que o futebol, o autódromo de Interlagos deveria ter recomposto seu traçado histórico. Além disso, há corridas do campeonato paulista e de Stock Car, onde largam mais de 30 carros, o que acaba sendo um número auto de veículos para poucos quilômetros de percurso.

O que aconteceu neste domingo; o acidente que matou nosso companheiro Gustavo Sondermann, foi devido, pelo que se pode observar até agora, a uma conjunção de fatores que vão desde o pneu de apoio, na curva do café, estar montado errado, passando pela chuva, falta de visibilidade, configuração do carro e até pela conformação da própria curva do café, um dos poucos, senão o único local onde não existe área de escape em Interlagos.

Todos sabem que um acidente ali pode ser de gravidade muito maior que em qualquer trecho do autódromo paulista. No acidente que vitimou o Sperafico, em 2007, a pista estava seca, porém não bastasse o carro de Sperafico estar na parte suja da curva, ainda foi tocado por outro carro.-A velocidade naquele local é muito grande, normalmente acima de 170/180 Km/h. Um impacto de um carro nessa velocidade contra um alvo imóvel sempre tem sérias conseqüências.

Tudo isto, porém, já devia ter sido avaliado, ao menos, desde a morte de Sperafico, em 2007, a fim de que mudanças pudessem ter sido estudadas e aplicadas.

Uma delas me foi exposta pelo Chico Lameirão. Piloto antigo, que conheceu muito bem o traçado histórico e um de seus grandes defensores, ao lado de outros como Paulo Gomes, Bird Clemente, etc.

Trata-se de utilizar-se a antiga Junção, o que por si só, já mudaria o ponto de tangência do Café, dando-lhe mais visibilidade. Mas poder-se-ia, aliado a isto, puxar a Curva do Café para dentro, aumento sua largura e deixando um espaço para  área de escape, com muro flexível, que absorva o impacto e não arremesse o carro para dentro da pista novamente.

Nada de colocar chicane em um autódromo já tão aviltado. Afinal as pessoas vão lá, sabendo do perigo que enfrentam, frise-se, para correr, não para se arrastar.

O problema é correr risco desnecessário. Quando se pensa em uma alternativa válida, a hipótese mais perigosa é risco desnecessário. Quando nem pensar é uma atitude cogitada, aí o risco é total. Aí é armadilha.

Quem tem essa responsabilidade são os dirigentes do automobilismo, os quais deveriam ouvir os pilotos, como esses verdadeiros monstros do nosso esporte, os quais nomeei acima. Afinal, falam com conhecimento de causa, com experiência que nenhum cartola tem.

Ao nosso amigo Gustavo Sondermann, só nos resta desejar que descanse em paz e que sua família possa ser confortada pela ação do tempo.

Anúncios
  1. #1 por Vinicius Nunes em 04/04/2011 - 21:56

    Carlos

    Infelizmente, vidas foram perdidas por falta de segurança em um esporte de risco. Como disse, mudanças são mais que necessárias, mas acredito que mudanças emergenciais devem ser adotadas para evitar novas fatalidades, isso até que pessoas competentes realmente façam modificações definitivas. Sou totalmente a favor de pilotos como conselheiros, afinal só quem está ali sabe quanto um muro em lugar perigoso chega rápido!

  2. #2 por Daniela Karasawa (@PrincessF1) em 04/04/2011 - 22:00

    Excelente texto, Burza. Informações preciosas sobre história e valor histórico – coisas que os brasileiros precisam respeitar e que no caso de Interlagos é uma questão de segurança.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: